imerso

surgia como uma enxurrada
lavava-me o medo, a inocência
lavava-me a alma

era querer navegar sem saber nadar
era sentir-se repelido
às profundezas até então inexploradas

sugou-me expectativas e crenças
as quais definiam fronteiras
revelou-me egos, ritmos
vozes até então silenciadas

ouvia-se a ruptura a cada braçada
era como sentir-se mais perto de si
mais perto do desconhecido
era como unir-se a uma melodia descompassada

era um libertar-se que navegava em ondas
de onde partimos e deixamos partir
era um conhecer-se num eterno imergir
onde a verdade convertia-se em fôlego
e nos permitia seguir

impasse

estou sempre de passagem
submerso em uma transitividade infinda
descamando-me a cada par de encontros
como um cometa em direção à terra

deixo um tanto e levo outro
perguntando-me se à chegada
serei mais de mim mesmo ou apenas resquícios

estou sempre de passagem
pois quando fico é quando mais me parto

desencontros

estar
entre janelas metereológicas
entre o abrigar-se e o lançar-se
entre a repulsa e a estima
entre a sequidão que retém
e o aguaçal que desatina
encontro-me mais no desencontrar

ilhado

queria descobrir quando
quando que o ilhar-se tornou-se destino e não partida
se fora eu uma vez parte do todo
ilhado, sou eu menos de ti?
menos a ti?
ilhado não por querer, hidrofobia talvez
ilhado
por não poder